‘O resultado fiscal de 2021 superou as previsões mais otimistas’, diz Mansueto Almeida em entrevista ao Estadão 

(In English after the version in Portuguese)

Ainda de férias dos nossos relatórios, não podia deixar de falar sobre a excelente entrevista em O Estado de São Paulo com Mansueto Almeida, atual economista-chefe do BTG. Mansueto é um dos mais brilhantes economistas brasileiros, com grande experiência no governo, especialmente na área fiscal e orçamento.

Acho que é importante que todos leiam a entrevista, para formarem uma ideia mais realista de como está a economia brasileira. Ele tem o dom de transformar temas complexos em explicações diretas e objetivas. É sempre uma oportunidade e um prazer ouvi-lo, agora nos eventos do BTG. Ainda assim, são muitas informações para serem absorvidas. Eu fiz um breve resumo da entrevista, dos pontos que mais me chamaram a atenção. Informações como essas são importantes para enquadrar a economia num quadro além do conjuntural.

“Mas, do ponto de vista estrutural, com as reformas que o Brasil fez nos últimos anos, o cenário melhorou muito. Essa confusão toda, de a gente ter uma economia praticamente estagnada em 2022, é uma coisa conjuntural. No mundo todo, a política monetária, quando entra no que a gente chama de “zona restritiva”, para trazer inflação para a meta, tem impacto em crescimento. A desaceleração de 2022 não é algo estrutural”.

Também vou traduzir a entrevista para nossos leitores no exterior, neste mesmo post. Seguem minhas anotações:

  1. Política fiscal está muito melhor hoje.
  2. Brasil fechou 2021 com um superávit primário do setor público (receitas menos despesas, sem os juros da dívida). Incluindo Estados, municípios, estatais e governo federal, alcançou entre R$ 20bn e R$ 40bn (o primeiro desde 2013). Em 2022, estimativa é de um déficit de R$ 76,8bn, ainda considerado baixo. Para se ter uma ideia, no biênio 2015/2016, de crise, o déficit chegou a R$ 267bn em valores da época.
  3. Brasil fechou 2021 melhor do que antes da pandemia em resultado primário e resultado nominal.
  4. Dívida bruta ficou abaixo das expectativas. Em 2021, ficou em 81% do PIB, mas é alta para países emergentes (média é 60%).
  5. Arrecadação cresceu rápido e isso superou as previsões. De 2017 a 2019, a arrecadação líquida foi de 17,5% do PIB por ano; em 2020, caiu para 16,2%; em 2021, deve ter chegado a 18%, maior do no nível pré-pandemia.
  6. Despesa primária controlada. Foi de 19,5% do PIB em 2021, no nível pré-pandemia, apesar do estímulo dado para combater os efeitos da pandemia. Mérito do teto de gastos.
  7. Mercado se assustou muito a possibilidade de deterioração da situação. Mudanças importantes na equipe, risco de rompimento do teto. Comunicação do governo gera muitas incertezas e é preciso melhorar esse aspecto.
  8. PIB caiu muito no primeiro semestre de 2020, mas cresceu no segundo semestre e continuou até o primeiro trimestre de 2021. PIB cresceu 4,5% em 2021. Surpresa foi a inflação alta (Brasil 10,7% e EUA 6,7%). Para combater, BC aumenta juros e isso puxa o PIB para baixo. Expectativa do BTG é de crescimento zero do PIB para 2022. Mercado oscila entre -0,5% a 1%.
  9. Se o governo sinalizar que o fiscal vai continuar a ser uma prioridade, os preços dos ativos já estariam bem melhores e a curva de juros e o câmbio, mais calmos.
  10. Nos últimos cinco anos, o Brasil fez muitas mudanças boas em marcos regulatórios: 5G, marco regulatório, concessões, ferrovias, cabotagem, portos e aeroportos. Existe um grande volume contratado de investimento privado de longo prazo em infraestrutura, que deve acontecer independente do cenário do momento.
  11. Produção de petróleo vai aumentar entre 25% a 30% na segunda metade desta década. Produção de grãos também vai crescer na mesma proporção. Serviços e indústria ainda dependem de avanços e melhorias.
  12. Taxa de investimento em 2021 foi de 19% do PIB, muito boa e superior a anos anteriores. Esse aumento de 2021 foi forte no setor agrícola e construção civil.
  13. Ambiente de financiamento das empresas melhorou muito. Dependem menos do setor público.
  14. Em 2023, haverá um ajuste fiscal importante para continuar a ser feito.
  15. Dilema a ser enfrentado: aumentar impostos (carta de 33% do PIB, similar ao da Inglaterra) ou cortar subsídios (hoje em quase R$ 300 bilhões ao ano, fora o Simples de mais R$ 81 bilhões)?
  16. Orçamento do Brasil continua muito engessado: a cada R$ 100 de orçamento, R$ 94 já tem destino pré-definido. Significa que toda a discussão de orçamento no Congresso é para decidir onde alocar 6%. É preciso aumentar essa margem e dar essa responsabilidade para cada governante e para o Congresso. Fez bobagem, que sejam penalizados pelo voto do eleitor.

I’m still on a break from our reports (up to February), but I couldn’t help but talk about today’s excellent interview in O Estado de São Paulo with Mansueto Almeida, the current chief economist of the BTG. As a former National Treasury Secretary, Mansueto is one of the most brilliant Brazilian economists, with great experience in government, especially in the fiscal and budget areas.

I think it is important for everyone willing to understand the Brazilian economy to read the interview, to form a more realistic idea. He has the gift of transforming complex topics into direct and objective explanations. It is always an opportunity and a pleasure to hear him, now at BTG events. Still, there is a lot of information to be absorbed. For that purpose, I have put together a brief summary of the interview, of the points that most caught my attention. Information like this is important to frame the economy in a framework beyond the short term.

“But, from the structural point of view, with the reforms that Brazil has made in the last few years, the scenario has improved a lot. This whole mess, of us having a practically stagnant economy in 2022, is a conjunctural thing. All over the world, the monetary policy, when it enters what we call the “restrictive zone”, to bring inflation to the target, has an impact on growth. The deceleration in 2022 is not something structural”.

Here are my notes:

  1. Fiscal policy is much better today.
  2. Brazil closed 2021 with a public sector primary surplus (revenues minus expenses, excluding debt interest). Including states, cities, state-owned companies and the federal government, it reached between R$20bn and R$40bn (the first since 2013). By 2022, a deficit of R$76.8bn is estimated, and it is still considered low. To get an idea, in the crisis biennium 2015/2016, the deficit reached R$267bn at the time.
  3. Brazil closed 2021 better than before the pandemic in the primary result and nominal results.
  4. Gross debt was below expectations. In 2021, it was 81% of GDP, but it is a high number for emerging countries (average is 60%).
  5. Revenue grew fast and this exceeded forecasts. From 2017 to 2019, net tax collection was 17.5% of GDP per year; in 2020, it fell to 16.2%; in 2021, it should have reached 18%, higher than the pre-pandemic level.
  6. Controlled primary expenditure. It was 19.5% of GDP in 2021, at the pre-pandemic level, despite the stimulus given to combat the effects of the pandemic. The merit relies on the spending cap.
  7. The market was very frightened by the possibility of a deterioration in the situation. Important changes in the team, risk of breaching the ceiling etc. Government communication generates a lot of noise and uncertainty, and this aspect needs to be improved.
  8. GDP fell a lot in the first half of 2020, but grew in the second half and continued until the first quarter of 2021. GDP grew 4.5% in 2021. The surprise was the high inflation (Brazil 10.7% and USA 6.7%). To combat this, the Central Bank increases interest rates and this pulls the GDP down. BTG expects zero GDP growth for 2022. The market forecasts oscillate between -0.5% and 1%.
  9. If the government signals that fiscal policy will continue to be a priority, asset prices would already be much better and the yield curve and the exchange rate would be calmer.
  10. In the last five years, Brazil has made many good changes in regulatory frameworks: 5G, regulatory framework, concessions, railroads, cabotage, ports and airports. There is a large contracted volume of long-term private investment in infrastructure, which should happen regardless of the current scenario.
  11. Oil production will increase between 25% and 30% in the second half of this decade. Grain production will also grow at the same rate. Services and industries still depend on advances and improvements.
  12. The investment rate in 2021 was 19% of GDP, very good and higher than previous years. This increase was strong in the agricultural and construction sectors.
  13. The financing environment for companies has improved a lot. They are less dependent on the public sector.
  14. In 2023, there will be an important fiscal adjustment to continue to be made.
  15. A dilemma to be faced: to increase taxes (33% of the GDP, similar to that of England) or cut subsidies (today at almost R$300bn a year, not counting the additional R$ 81bn for the Simples – a lower tax for smaller companies)?
  16. Brazil’s budget is still too restricted: for every R$100 in the budget, R$94 has a pre-defined destination. It means that all never-ending budget discussion in Congress is to decide where to allocate merely 6%. It is necessary to increase this margin and give this responsibility to each governor and to Congress. If they make a mistake, they should be penalized by the elector’s vote.

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