Uma análise da carta “O País Exige Respeito; a Vida Necessita da Ciência e do Bom Governo”

Acabei de ler a “carta aberta”. Encontrei respostas razoáveis para quase todas as perguntas que fiz ao analisar a “carta”. Ela é sensata em todos os pontos que apresentou. Foi assinada por centenas de economistas, banqueiros e empresários. A leitura atenta da “carta” pode contribuir para melhorar o combate à Covid-19 no Brasil.

Sob a perspectiva de políticas públicas, a “carta” partiu de um diagnóstico preciso das causas da atual condição brasileira, incluindo as dificuldades de gestão do governo. Por isso, a “carta” conseguiu propor soluções implementáveis pelo governo federal: (1) vacinação rápida e abrangente, (2) incentivo ao uso de máscaras, (3) implementação de medidas de distanciamento social e (4) coordenação nacional de ações.

Além de oferecer caminhos para aliviar os efeitos da pandemia, pensei quais outras razões teriam motivado a elaboração da “carta”. Uma delas pode ter sido a oportunidade apresentada pela troca de ministros, considerando o farewell speech de Pazuello, na segunda-feira passada, quando apontou quatro eixos estratégicos para o combate à Covid-19: (1) reforço da atenção primária, (2) disponibilização de leitos, (3) vacinação em massa e (4) fortalecimento da vigilância epidemiológica (testagem). Apenas subsidiariamente adicionou a necessidade de medidas preventivas (uso de máscaras, higiene das mãos, distanciamento de segurança, ambientes arejados, atividade física).

A segunda motivação que pode ter ocasionado a elaboração da “carta” relaciona-se com a dinâmica da elaboração de políticas públicas. É provável que a “carta” decorra de uma dificuldade de interlocução com o governo. Por um lado, a administração pode ter sido insensível aos apelos dos setores produtivos que clamam por uma ação coordenada e efetiva do governo federal que melhorasse a condição atual. Por outro lado, o governo pode ter dado acesso e ouvidos aos seus apoiadores, em geral, contrários a lockdown e medidas restritivas. A “carta” teria sido a forma encontrada de romper essa barreira e restabelecer um equilíbrio na presença dos segmentos sociais na formulação de políticas públicas.

Uma última razão, sob a perspectiva política para a elaboração da “carta”, é oferecer apoio a governadores e prefeitos que estão sob pressão de Bolsonaro. O presidente tem criticado as medidas restritivas, aumentando a polarização política nos estados e nos municípios. A “carta” poderá fazer um contraponto a essa influência de Bolsonaro.

Para além das disputas partidárias ou ideológicas, os diversos segmentos da sociedade precisam ser ouvidos pelo governo. Por definição, é impossível que qualquer governo seja integralmente responsivo às demandas da sociedade. Neste difícil momento por que passa o país, o melhor é evitar soluções exóticas ou de efeitos duvidosos e incorporar as melhores políticas públicas com base em bons resultados. A “carta” parece promover esse caminho e o governo faria bem em considerá-la com atenção.

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